8 de maio de 2015

Introdução à Comunicação Não-Violenta

De 22 a 24 de maio ocorrerá o evento em Foz do Iguaçu


Editor: Vanessa Mancino

Vocês estarão em Foz no mês de maio realizando algumas atividades. Quais são elas?

Yuri Haasz: Dia 21 (5a feira) vamos compartilhar nossa experiência como voluntários em um retiro de Comunicação Não-Violenta em Israel/Palestina para mais de 100 israelenses, palestinos e internacionais, do qual participamos em fevereiro deste ano. Local: Shopping Cataratas JL, piso L2, sala em frente à loja Estivanelli, 21/05 às 19:30. (Quem quiser pode saber mais sobre este projeto pelo link a seguir: http://benfeitoria.com/CNVisraelpalestina2015).

De 22 a 24 de maio vamos oferecer uma Introdução à Comunicação Não-Violenta no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu (CDHMP), na Vila A, Alameda Batuíra, 146. Mais informações pelo email: contato@sinergiacomunicativa.com.br ou pela página do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1437219959906909/permalink/1442132256082346/  

Além disso, farei uma palestra para a Fundação Rotária divulgando o Programa da Bolsa de Estudos pela Paz Mundial, pelo qual cursei meu primeiro mestrado em Estudos de Paz e Resolução de Conflitos, dentro da área de Relações Internacionais, no Japão

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Desde quando vocês estão envolvidos com a Comunicação Não-Violenta?

Sandra Caselato: Nós dois nos interessamos pela questão da paz e da não-violência há mais de 20 anos, quando começamos a praticar e estudar Aikido, uma arte marcial conhecida como a arte da paz, que, dentro de suas contradições, serviu para nós como início de nosso estudo e pesquisa sobre marcialidade, pacifismo, violência e não-violência.

Começamos a nos aprofundar no estudo da Comunicação Não-Violenta mais especificamente a partir de 2009, no Japão, onde o Yuri cursou o mestrado em Estudos de Paz e onde eu atuei como psicóloga junto a uma ONG, oferecendo apoio psicológico a imigrantes, principalmente brasileiros, e realizando palestras, vivências e cursos sobre estresse, saúde emocional, relacionamento interpessoal, adaptação cultural, dentre outros temas pertinentes à realidade dos estrangeiros vivendo no Japão.

Desde então estamos bastante envolvidos na pesquisa, autopesquisa e ensino da Comunicação Não-Violenta. Estivemos participando e oferecendo cursos no Brasil, Japão, Tailândia, Estados Unidos e Israel/Palestina. Acabamos de voltar de um retiro de Comunicação Não-Violenta em Israel/Palestina para mais de 100 israelenses, palestinos e internacionais, que aconteceu em fevereiro de 2015 entre Jericó e o Mar Morto.

Como vocês se interessaram pelo tema?

Sandra Caselato: A Comunicação Não-Violenta surgiu em minha vida como uma continuidade e confluência de meus estudos sobre não-violência e de abordagens humanistas de psicologia, especialmente a Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Marshall Rosenberg, criador da CNV, foi aluno e pesquisador assistente de Rogers, e acredito que a Abordagem Centrada na Pessoa tenha criado as raízes e as condições de possibilidades para o surgimento da Comunicação Não-Violenta. O meu interesse pela CNV surgiu inicialmente pelo potencial de transformação intra e interpessoal que ela apresenta, e adicionalmente por sua abrangência em oferecer formas efetivas de transformação sistêmica (grupal e social).

Yuri Haasz: Meu interesse pela CNV surgiu em meio a minha pesquisa e trabalho com o conflito Israel/Palestina. Durante o mestrado fiz uma pesquisa de campo de 6 meses em Israel/Palestina, enquanto ao mesmo tempo trabalhei com ONGs locais e internacionais de direitos humanos. Me dei conta como muito do trabalho de direitos humanos, embora importantíssimo, não contribuía para melhorar a situação, e às vezes tinha efeito contrário. Quando conheci a Comunicação Não-Violenta vi um novo campo de possibilidades se abrindo para a resolução de conflitos, por trazer uma proposta radicalmente humanizadora e transformadora, que oferece formas práticas de aplicar princípios que vários ícones da ação não-violenta (como Gandhi, Martin Luther King e Mandela) já ensinaram.

Quais as maiores dificuldades das pessoas em relação à Comunicação Não-Violenta?

Sandra Caselato: a meu ver, a maior dificuldade é nos descondicionarmos da maneira que estamos acostumados a ver e tratar a nós mesmos e os outros, e encontrarmos em nós mesmos um lugar de não-violência, que vê o outro (e a nós mesmos) com mais empatia e aceitação ao invés de julgamentos que levam à culpabilização e punição.

Quais os benefícios da Comunicação Não-Violenta na prática?

Yuri Haasz: A CNV tem contribuído para transformação de conflitos no mundo todo. Tem sido utilizada em processos de psicoterapia, relacionamentos pessoais e profissionais, e transformação de conflitos entre grupos e internacionais.

A  Comunicação Não-Violenta nos ajuda a enxergar a humanidade por trás das ações e palavras dos outros, bem como de nossas próprias, transformando ideias maniqueístas que julgam as pessoas, a nós mesmos e as situações como ‘boas’ ou ‘más’, em uma compreensão empática sobre as motivações profundas e humanas que levam as pessoas a agirem como agem.

Sandra Caselato: A meu ver, a violência surge a partir da ideia de que alguém é ‘mau’ e portanto ‘merece’ ser punido – essa é a porta de entrada da aceitação e justificação da violência em nossa sociedade e cultura. Essa ideia e maneira de ver o mundo está fortemente presente em nossa educação e cultura.

Conseguindo enxergar que todas as pessoas, sem exceção, agem para suprir necessidades humanas universais, podemos compreender qualquer ação, mesmo que não concordemos com ela. Isso não significa aceitar passivamente as condições que nos apresentam, mas sim encontrar formas mais efetivas e sustentáveis de transformá-las.

A CNV possibilita que consigamos nos conectar com as pessoas em um nível de compreensão mais profundo e humano e possamos a partir daí transformar conflitos em oportunidade de evolução.

Quais conexões vocês vêm entre a Comunicação Não-Violenta e a assistencialidade?

Sandra Caselato: Essa ideia de humanidade compartilhada, que a CNV adota com profundidade, me trouxe um insight importante sobre a assistencialidade: acredito que o nível de assistência aumenta significativamente quando conseguimos compreender empaticamente o outro ao invés de julgá-lo como ‘certo’ ou ‘errado’, ‘bom’ ou ‘mau’. Enquanto nossas mentes se ocupam com este tipo de julgamento, estamos condicionados a culpar, punir e nos afastar e, desta forma, a assistência se torna difícil, se não impossível. Quando conseguimos encontrar um lugar de compreensão profunda das motivações do outro, que surgem a partir de valores humanos universais, compartilhados também por nós, conseguimos estabelecer uma conexão empática com o outro que permite um nível de assistência muito mais transformador e profundo. E todos são transformados nesta interação.

Vocês residiram em outros países, como foi essa experiência?

Yuri Haasz: Moramos durante 2 anos e meio no Japão, 6 meses em Israel/Palestina (para onde voltamos recorrentemente), ficamos 1 mês e meio na Tailândia e eu morei alguns meses na Inglaterra e um ano nos EUA, onde cursei um segundo mestrado em Ciências Sociais com foco em Inovação Social Sistêmica na Universidade de Chicago. Além disso, morei 15 anos em Israel (nasci lá e vim com esta idade para o Brasil).

Sandra Caselato: Acredito que viajar e viver em outros países possibilita a experiência da alteridade de uma forma muito explícita; nos leva a perceber coisas sobre nós mesmos e nosso condicionamento cultural que antes não tínhamos como imaginar. E isso contribui para desenvolver a empatia, a capacidade de compreender formas diversas das minhas de ver e estar no mundo.

Em relação aos conflitos no mundo, que caminhos poderíamos trilhar para sermos um mundo mais pacífico?

Sandra Caselato: acredito que a transformação pessoal é a base para a transformação no mundo. Se queremos mais paz no mundo, precisamos começar a criar paz dentro de nós mesmos e ao mesmo tempo transformar nossas relações, nosso ambiente, e a partir daí nossa sociedade, os sistemas onde estamos inseridos. Sem essa transformação interna qualquer tentativa de mudança externa tende a reforçar o paradigma que já está aí em vez de transformá-lo.

Como vocês percebem o conflito Israel x Palestina? Nesse caso, qual o caminho para a Paz? Arriscam alguma resposta?

Yuri Haasz: Como vários outros desafios complexos que a nossa sociedade enfrenta, a questão Israel/Palestina é apenas um sintoma de problemas mais profundos. Há inúmeras influências que contribuem para a criação de uma ‘violência estrutural’ que muitas vezes fica invisível. O eurocentrismo, o orientalismo, o colonialismo – e além desses, no caso Israel/Palestina, a ocupação militar que Israel exerce sobre os palestinos – todos criam um enquadramento da situação que não permite ver soluções. É fundamental desconstruir e expor os elementos que compõem essa violência estrutural, que desumaniza tanto os marginalizados quanto os privilegiados. Somente uma ‘humanização radical’, que primeiro expõe e depois busca eliminar a assimetria com a qual seres humanos estão posicionados num sistema e como são tratados dentro dele, pode transformar a situação. Uma sociedade que tem como conceito estruturador a centralidade numa humanidade compartilhada, e que permite e até mesmo fomenta a diversidade de sua manifestação, tem riqueza e condições ideais para o desabrochar humano. A CNV é um instrumento poderoso para fomentar uma transformação nesta direção, pois ajuda a compreender o mundo por um paradigma humanizador, e fomenta uma compreensão e expressão com base na ideia de  humanidade compartilhada. A CNV também contribui para desfazer relações hierárquicas verticais de poder imposto, e criar relações horizontais de poder compartilhado, ancoradas numa intenção de conexão humana. Essa mudança na intenção é importante, e tem efeitos diretos na linguagem com a qual construímos nossa realidade social conjunta.

 Como pensam a CNV e o Brasil, que historicamente é um país pacífico?

Yuri Haasz: É verdade que o Brasil não está em guerra com outros países, porém existe uma guerra dentro da população marginalizada e entre essa população e o estado, gerada pelo sistema de distribuição de renda no Brasil, um dos piores no mundo. Os números de mortos são estarrecedores e ultrapassam em muito um conflito como o de Israel/Palestina. No último ataque de Israel a Gaza as TVs e mídias sociais se ocuparam com os números de mortos, mais de 2 mil palestinos (maioria civis) e aproximadamente 70 israelenses (quase todos militares), enquanto apenas em 2012 foram assassinadas no Brasil 56 mil pessoas, e segundo a Anistia Internacional, destes, 30 mil são jovens entre 15 e 29 anos, dos quais 77% são negros. O Brasil não apenas sofre dessa ‘guerra interna’ como também de um racismo endêmico. Este racismo na maioria das vezes é negado como não existente, o que permite a sua continuidade – uma violência estrutural que não está sendo exposta nem nomeada, e portanto dificilmente pode ser transformada. A CNV, como processo de humanização, pode ser um instrumento de articulação de mudança social tanto da parte de movimentos sociais, quanto da parte de como se conversa no âmbito público sobre a desumanização extrema nessa situação, e nomeá-la de forma incisiva porém transformadora, para poder posteriormente tomar passos para modificá-la.

 Como vêem exemplos de diplomacia internacional pela não-violencia e a CNV?

Yuri Haasz: As ações mais significativas que eu tenho admirado têm vindo de ativistas de mudança social. Essa semana reuniram-se mulheres ativistas no Hague para celebrar cem anos da reunião da Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade, que se reuniu no mesmo local para pedir o fim da primeira guerra mundial. Entre elas, encontravam-se Laureadas do Prêmio Nobel da Paz: Mairead Maguire, premiada em 1976 aos 32 anos por seu trabalho para ajudar a parar o conflito étnico na Irlanda do Norte; Leymah Gbowee laureada de 2011 por ter liderado o movimento de mulheres que deu fim à segunda guerra civil na Libéria em 2003; Jody Williams laureada em 1997 por seu trabalho com a campanha contra minas terrestres. As três continuam ativas, embora com idade mais avançada e me parecem ter feito diferença exatamente por ter decidido agir para intervir nas violências estruturais (ou indiretas) e violências diretas.

Sandra Caselato: Há uma relação direta deste tipo de atitude com a Comunicação Não-Violenta. Um dos pilares da CNV é a empatia, o outro é a autenticidade. Falar autenticamente o que nos incomoda é algo que não estamos acostumados, muitas vezes por medo da retaliação de alguém que exerce poder sobre nós. Tomar atitude de nos posicionarmos é uma forma de empoderamento, que favorece nivelar a distribuição de poder e ‘horizontalizar’ as relações. Porém há de se lembrar que a ideia não é virar a mesa e passar a ter poder sobre o outro, pois desta forma o sistema continuaria o mesmo. A ideia é transformar este sistema vertical de ‘poder imposto’, para um sistema horizontal de ‘poder compartilhado’ – para isso, a CNV propõe uma dualidade empático-autêntica, uma juntamente com a outra, e não separadamente.

 Como podemos pensar a não-violência e a crise em nossos sistemas climático, econômico e social (guerras)?

Yuri Haasz: A definição original de Desenvolvimento Sustentável que apareceu no relatório Brundtland de 1987 era centrada em necessidades humanas: “é um desenvolvimento que atende as necessidades do presente sem comprometer a habilidade de futuras gerações de atender às suas necessidades”.

Com o tempo, os conceitos de desenvolvimento foram se afastando da ideia de necessidades humanas, sendo influenciados por modelos neoliberais baseados em entendimentos racionalistas e utilitaristas de seres humanos e de sociedade, algo que prevalece com ampla influência nos círculos econômicos e políticos, e têm contribuído muito para desequilíbrio climático, desestabilização econômica e vulnerabilização de populações, inclusive conflitos armados.

Alguns modelos de desenvolvimento alternativo têm sido propostos pela ONU e por diversos pesquisadores, de maneira a retomar um modelo de desenvolvimento centrado no humano, um retorno à ideia de necessidades humanas. Há diversas propostas de modelos diferentes de desenvolvimento, como o “Human Scale Development” de Manfred Max-Neef, ou o “Another Development” da fundação Dag Hammarskjold. Há, ainda, propostas de mudar os indicadores pelos quais medimos como está uma sociedade, por exemplo, abandonando o PIB (Produto Interno Bruto), que tem sua raiz na produção de coisas e o resultante acúmulo e adotando índices como o Índice de Progreso Social (SPI), o Happy Planet Index (HPI) da New Economics Foundation, o Living Plantet Index da WWF, ou ainda o Índice de Felicidade Interna Bruta (GNH), empregado pelo governo do Butão.

Várias destas propostas são baseadas em ‘necessidades humanas universais’, a mesma base teórica da CNV. Quando pensamos na construção de um novo sistema baseado em nossa humanidade compartilhada, abordagens praticas como a CNV podem nos ajudar a trazer este paradigma para os aspectos mais corriqueiros do dia a dia, como pensar, compreender e expressar.

 

 

Mais informações no evento no facebook: link  Ou pelo email:  contato@sinergiacomunicativa.com.br

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MINI CURRÍCULOS:

Sandra Caselato e Yuri Haasz vêm estudando, vivenciando e compartilhando CNV no Brasil e no exterior. Oferecem cursos e consultoria para desenvolvimento de grupos, equipes e lideranças, processos de mudança organizacional e transformação de conflitos, unindo princípios de não-violência a abordagens colaborativo-participativas inovadoras para a co-criação de um mundo sustentável.

Yuri Haasz – Mestre em Ciências Sociais (foco em Sustentabilidade Social) pela Universidade de Chicago, EUA. Mestre em Relações Internacionais com Concentração em Estudos de Paz e Resolução de Conflitos pela ICU, Tóquio, Japão. Aperfeiçoamento em Educação para Paz, Jornalismo de Paz e Transformação Pacífica de Conflitos pela Transcend Peace University (Áustria). Curso em Assistência Humanitária e Direitos Humanos junto a ONU, pela Duke University (Genebra). Bolsista Rotary World Peace Fellow 2009-2011 no Japão. Trabalhou com a Human Rights Watch, Divisão do Norte da África e Oriente Médio, em Jerusalém.

Sandra Caselato – Psicóloga (CRP 06/107019), Bacharel em Artes Plásticas, Especialista em Didática do Ensino Superior, membro da Associação Paulista da Abordagem Centrada na Pessoa (APACP). Entre 2009 e 2011 trabalhou no Japão, atendendo a população estrangeira, escolas e grupos, oferecendo palestras, workshops e consultoria sobre comunicação, inteligência emocional, estresse e adaptação cultural, entre outros temas. Em 2010 prestou consultoria para a Agência das Nações Unidas UNRWA em Israel/Palestina, com treinamento em melhores práticas para funcionários na área de saúde psicológica.

 

* Por Alexandre Pereira.

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